Em Busca do Coração Livre

ilustração: Mateo Dineen

Tonecas observava radiante a delicada planta de quatro folhas que a mão segurava. Apesar do imenso tamanho da sua boca, quase não houve sorriso que lhe coubesse.

O bonito presente havia-lhe sido enviado pelo Tobias (aqui vão conhecê-lo) — o amigo raro, de outro lugar, que compreendia a melodia da Terra e a linguagem da Natureza e dos animais.

A Natureza era o mundo do Tonecas, o mundo de ritmos próprios e livres. Com as plantas e os animais tinha conversas extraordinárias, com muitos porquês, muitos deles bicudos.

De mansinho, Tonecas acomodou a planta de quatro folhas entre as corpulentas árvores que se erguiam bondosas. «Se eu fosse uma planta, havia de querer que me dissessem palavras bonitas», pensou. Imediatamente, todo o corpo se imaginou uma planta a dirigir-se a quem por ali passava.

Daí a pouco, um suspiro estranho rompeu o silêncio que estava ali. De entre os arbustos, despontou um pequenino homem, puído e curvado, com nariz bulboso e umas tenebrosas rugas que se espalhavam na cara murcha.

O misterioso ser aproximou-se, inclinou a cabeça para trás e observou Tonecas.

Como era sobremaneira alto, havia pormenores que o Tonecas não conseguia distinguir com exactidão. Por exemplo, o nariz bulboso parecia-lhe uma enorme e disforme verruga, as rugas fundas eram como que uma mancha escura que fazia lembrar a carcaça de um pipo velho. Para Tomé, o pequenino homem era bonito: trazia a beleza antiga consigo.

O senhor pequenino sorriu de leve antes de cair num choro pesado, que carregou as nuvens de chuvas tristes e arrastou uma sombra negra por todo o espaço.

— Oh, por onde ando! — soluçou o triste homem.

— Pequenino senhor, não me quer dizer o que o aflige? Talvez eu possa ajudar — disse Tonecas, delicadamente.

— Menino, que profunda tristeza!: parte do meu coração partiu! — lamentou o senhor pequenino. — No meu peito, agora, apenas carrego um pedacinho de coração, que está tão angustiado quanto a noite mais tenebrosa. Atravessei rios, montes e vales, abri caminho por bosques inacessíveis, trepei até às nuvens mais longínquas, escavei nas terras mais secas e quentes, desmaiadas pelo Sol, e nada, não encontrei o meu velho coração — conclui, quando rapidamente uma dor fria lhe tirou quase toda a força.

Tomé ajoelhou-se, aflito, e colheu aquele pequenino ser, que se deixou ir tal qual a criança adormecida sobre o peito da mãe. Agora, numa das mãos, Tonecas segurava um senhor pequenino e triste.

Tonecas, incansável e destemido, avançou sobre terras e mais terras, atravessou rios e ribeiros, subiu montes e montanhas, até chegar ao País dos Sonhos Possíveis. Naquele lugar da Terra, os sonhos eram levados muito a sério, de tal forma que não havia sonhos tristes ou rezingões; logo que o sonho tivesse corpo dentro do coração, arranjava-se maneira de o fazer nascer — feliz e livre.

Entretanto, o senhor pequenino acordou.

— Onde estou?! — perguntou inquieto, enquanto olhava tudo com olhos esbugalhados de espanto.

— No Bosque das Árvores Felizes, que fica no coração do País dos Sonhos Possíveis — respondeu Tomé de sorriso satisfeito.

Nesse preciso momento, o esquilo Serafim passou por eles, e Tonecas perguntou-lhe onde morava Benjamim, o lenhador arrependido. Serafim indicou-lhes o caminho, e eles lá prosseguiram até se deparem com uma incrível casa de madeira: flores de todas as formas e cores cobriam a parte frontal da casa, desenhando corações, livros, lápis de cor, cadernos, e tantas outras coisas; nas laterais, ramos verdejantes erguiam-se até ao telhado, coberto de incontáveis pétalas de cristal que resplandeciam em mil cores. Surpreendentemente, as flores lançaram no ar o aroma da Primavera dos campos de papoilas misturado com a maresia do mar frio do norte. Tonecas e o senhor pequenino quase desfaleceram maravilhados.

Subitamente, a porta rangeu e abriu-se. Por detrás dela um velho duende espreitou e disse, entusiasmado:

— Oh! Nunca vos tinha visto por aqui!

— Olá, duende! — cumprimentou Tonecas, gentilmente. — És o Benjamim?

— Sim, bom menino! — respondeu Benjamim, num sorriso amável.

— Ah, que bom vê-lo!  — suspirou Tonecas, ligeiramente ansioso.

— Mas então o que aconteceu?!

— Bem, parte de um coração partiu e nada sabemos dele! Andará triste por aí, com certeza.

— Estrelas do Céu! Outro coração! — lamentou Benjamim. Depois perguntou: — Quem foi o triste desafortunado que perdeu o coração desta vez?

— Fui eu, estimado duende! — respondeu choroso o senhor pequenino.

— Oh, vejam só o que me esperava! — gracejou Benjamim. Em seguida, já num tom reservado, afirmou: — É importante que saibam que o coração não partiu.

— Não! — exclamou Tonecas.

— Não! Mas… — balbuciou o senhor pequenino, para imediatamente a sua respiração se suster de surpresa.

— Não! — repetiu Benjamim. — O coração está sentado no seu jardim. Permanece assim há muito tempo, sozinho. Na verdade, o coração anseia por ver o mundo, porque o mundo, diz-se, é belo como um balão colorido dentro de um sonho feliz. Mas o tempo corre, e ninguém convida o coração a ver o mundo, e ele nada pode fazer. O tempo corre ainda mais, implacavelmente, tanto que o jardim está despido, pintado de castanho e cinzento. O coração permanece sentado no jardim, mas agora tem o tamanho de uma ervilha sem sorriso algum. Já não espera coisa nenhuma! Está ali! Compreenderam, amigos? O coração está profundamente triste! — concluiu Benjamim.

O senhor pequenino ficou perplexo. Nem uma palavra lhe saiu. Parecia já não saber o que era. Talvez fosse também um pássaro, uma montanha, um mar, uma dança. Sentia-se muito confuso. Apenas sabia que há muito que estava fechado dentro do medo, com as suas palavras tristes, com os seus muros altos, com as suas cores sombrias, com os seus barulhos aterradores.

Ao notar ainda mais a angústia do senhor pequenino, Tonecas pousou docemente a sua mão macia sobre as suas costas, confortando-o.

Com ternura na voz, Benjamim disse:

— Vou ver o que consigo fazer para ajudar. Acompanhem-me, amigos.

E lá foram os três. Atravessaram um bonito pomar e entraram na carpintaria do duende Benjamim. Uma pitoresca carpintaria onde, para além de martelos, serrotes, parafusos, se via lãs e fios de seda, pompons, tecidos, lápis de cor, pincéis, aguarelas, telas. Por detrás de uma parede de livros encadernados em madeira, com capas enfeitadas a folhas secas, brilhava um pequeno recanto que acolhia quatro velhas poltronas dispostas ao redor de uma mesa quase tão antiga quanto o mundo. Tonecas e o senhor pequenino sentaram-se comodamente e ficaram a observar tudo com delícia nos olhos. Enquanto isso, o duende Benjamim preparava um chá de hortelã-pimenta e uns deliciosos biscoitos de aveia.

O Sol elevara-se até ao céu alto e voltou a descer até tocar o horizonte, e os três novos amigos ainda conversavam.

Há conversas capazes de mudar o rumo de uma história, e esta foi uma delas.

*Timóteo, o senhor pequenino*

ilustração: Jean-Baptiste Monge

O senhor pequenino chamava-se Timóteo. Contou que nunca tivera sonhos. Assim tinha pensado durante muito tempo. Quando pequenino, ouvira muitas vezes que a vida era difícil, que por isso tinha que se esforçar muito, para tudo, e que os sonhos eram para os tontos que acreditavam nas histórias de fantasia.

Diante do majestoso Sol que se recolhia no horizonte, já com tufos de cabelo branco e rugas fundas, Timóteo lamentava a sua vida; tinha-se tornado um comerciante de tecidos, cujos prejuízos e preocupações aumentavam a cada dia.

Mas a verdade é que em nenhum momento o coração se alegrara, mesmo quando fez bons negócios. Talvez porque nunca segredara sonhos às estrelas, nunca mergulhara num campo de trigo, nunca dançara com a chuva, nunca brincara com um cão feliz. Era muito tudo aquilo que não fizera nem sentira. Tinha praticamente dedicado a sua vida a comprar e a vendar, a números e a cálculos, e nada disso havia entusiasmado sequer uma pequenina parte do coração, antes o esvaziou, o cansou, e o fez tão fraco e triste a ponto de lhe roubar o mais tímido dos sorrisos.

Numa noite fria e chuvosa, Timóteo acordou muito agitado: uma dor funda arrancava-lhe o peito. O rosto imediatamente foi inundado por lágrimas. Por um longo tempo sentiu-se enfraquecer cada vez mais, até que, de repente, viu-se a si mesmo, ainda menino, envolto numa doce luz dourada, a segurar entre as mãos um coração cheio de Sol a jorrar filamentos de luz sobre o mundo.

Em seguida, Timóteo viu cada um dos seus sonhos esquecidos surgirem diante de si como num filme. Eram imagens vivas, cheias de cor e alegria. Aos poucos, foi-se recordando desses sonhos, de como eles eram mais importantes de que tudo o resto. Seguro, acreditou que uma parte do seu coração havia partido.

Durante uns instantes, na casa do duende Benjamim, não se ouviu uma palavra. Ora, quando uma lágrima triste nos invade, muitas vezes as palavras não conseguem sair. Ficam aprisionadas, aflitas, num sítio qualquer dentro de nós, tal como um pássaro dentro de uma gaiola. O duende Benjamim conhecia bem o rosto magoado de cada palavra que fechara dentro de si. «Oh, Estrelas do Céu, que peso carrego no meu velho peito!», suspirava silenciosamente.

A fim de mandar embora aquele silêncio pesado, Tonecas lembrou-se de perguntar:

— Duende Benjamim, porque te chamam de o lenhador arrependido?

— Ora, ora, menino! — resmungou Benjamim. — Há perguntas que não são para se fazer!

— Mas uma pergunta tem direito a ser feita — disse Tonecas, cheio de certeza.

— Nem todas!

— Mas então porque é que esta pergunta não tem o direito?

— Porque é uma pergunta tonta, e eu tenho ainda muito que fazer, menino. Não perco o meu tempo com tontices.

Contudo, Tonecas era muito curioso, e não conseguiu evitar fazer mais perguntas.

Apesar de não compreender como fora ali parar, como o poderiam ajudar, Timóteo observava os novos amigos, e o pequenino coração encolhido no seu peito se abria na mesma lentidão encantada de uma flor que acolhe a Primavera. Como pudera esquecer que a amizade é tão doce quanto um favo de mel, pensou. Sentia-se comovido. Mas de súbito, estremeceu com o resmungo do duende Benjamim:

— É preciso ter muita paciência! Se queres fazer perguntas, fá-las às árvores, ao vento, ao Sol, à terra: hão-de saber responder a tudo. — Olhou para o dia a cair lá fora e, num gesto decidido, encaminhou-se para a mesa onde transformava a madeira. Tonecas e Benjamim depressa o seguiram, curiosos como um rato a despontar de um buraco.

— Meus amigos — disse Benjamim, num tom quase solene —, algo de único e extraordinário está prestes a acontecer, precisamente no cimo desta mesa.

— O que queres dizer com isso?! — exclamou Tonecas.

— Em primeiro lugar, não quero perguntas. Em segundo lugar, têm de se manter calados como um rato escondido por detrás da porta. Em terceiro lugar, não podem tocar em peça nenhuma já terminada. Se não fizerem isto, peço ao duende Felismino Costureiro para que vos cosa a boca. — Assim que disse estas palavras, Benjamim concentrou-se na sua arte, e nada mais o distraiu. Tonecas e Timóteo, por sua vez, permaneceram como estátuas encantadas, detidas em cada gesto delicado e preciso do admirável duende Benjamim.

*O duende Benjamim*

ilustração: Jean-Baptiste Monge

Benjamim era um dos duendes mais extraordinários que alguma vez existiu.

Em tempos, viveu numa floresta habitada por uns quantos homens. Eles não o conseguiam ver, porém, ele sim, e muito bem. Benjamim reparava que os pássaros livres se afastavam dos homens, que os esquilos se recolhiam numa correria à sua passagem, que a água do rio se envergonhava com a poluição que carregava. Longo tempo passou, e o duende, de tanto observar os homens, esqueceu-se quem era, esqueceu-se de que transportava dentro de si uma sabedoria inexplicável, e lentamente foi perdendo o dom de conversar com as árvores, de escutar as rochas sobre os grandes feitos da História, de entender a língua de todos os animais, entre tantas outras coisas magníficas.

Foi assim que decidiu imitar os homens: pegou num serrote e começou a ferir as árvores, arrancando-lhes quantos ramos conseguia. No Inverno, aquecia-se na lareira e adormecia tranquilo.

Num dia cinzento, um duende inconsciente e enraivecido lançou Benjamim ao rio, que corria agitado por entre a poluição. Desgraçadamente, Benjamim não sabia nadar, e rapidamente deslizou assustado até à parte mais profunda do rio. Bem que sacudiu as pernas e os braços, mas parecia que uma força o impedia de subir até à superfície. A truta Leopoldina avistou Benjamim, porém, há muito que a poluição a deixara doente, incapacitada, impedida de nadar mais que um sopro, então nada conseguiu fazer.

Maravilhosamente, do céu cansado de nuvens, rompeu um raio de sol que penetrou o rio e envolveu Benjamim, já desfalecido. De imediato, a Árvore das Mil Luzes estendeu um ramo até ao fundo do rio e acolheu Benjamim.

Na Árvore das Mil Luzes viviam seres espantosos, cheios de humor e graça. Durante o dia, cantavam, dançavam, contavam histórias, rodeavam Benjamim de gestos e palavras doces. Durante a noite, folhas de luz cor-de-rosa o aconchegavam, para que dormisse quentinho e tranquilo. E assim o Benjamim regressou à vida.

Enquanto esteve na Árvore das Mil Luzes, Benjamim foi-se recordando da sabedoria que morava dentro de si. Quando regressou a casa, porém, uma dor profunda de tristeza e arrependimento o invadiu: «Tantas árvores feridas pelas minhas tristes mãos!». Por um longo tempo, choramingou por todos os cantos.

Num dia sorridente, Benjamim caminhava cabisbaixo pela margem do rio, completamente distraído do que se passava à sua volta. Mas a Árvore das Mil Luzes, que o observava, sussurrou o seguinte: «Benjamim, amado duende, o teu coração é magnífico! Vais criar coisas belas, vais acender a vida e devolver a alegria aos corações rasgados». Os passarinhos iniciaram ali um canto radioso. Ao mesmo tempo que Benjamim escutava o canto, a tristeza o abandonou, e ele logo entendeu o que dali em diante iria fazer.

A cada Primavera, Benjamim acondicionava no alpendre as centenas de pedaços de madeira que as árvores lhe ofereciam. Tinha-se transformado num artesão admirado e homenageado em todo o mundo. E de todo o mundo recebia encomendas, que assim prontas eram diligentemente transportadas pelas aves.

Benjamim andou por terras distantes, com o vento e o Sol, aprendeu com duendes antigos a sabedoria da madeira, criou coisas simples mas também inimagináveis: ora um lápis ora um céu salpicado de estrelas que contavam histórias vivas sobre os infindáveis planetas que habitam o Universo.

Benjamim era um duende extraordinário no mundo!

Recordam-se de que Tonecas e Timóteo estavam como estátuas encantadas? Pois bem, um longo tempo passou, e ainda olhavam esbugalhados de encanto o duende Benjamim, enquanto ele moldava a madeira e lhe trazia vida.

Benjamim era especialmente elegante, até no modo como media, cortava, raspava, esculpia a madeira. Eram movimentos de uma grande beleza, e não havia como não ficar amarrado a ela.

De modo repentino, um surpreendente canto de rouxinóis ressoou pelo espaço como pétalas de rosas primaveris. Mil pedaços de luz colorida esvoaçavam. Tonecas e Timóteo tinham o brilho do Sol nos olhos, e Benjamim a alegria pura dos jardins celestes. Ele rejubilava baixinho. Daí a pouco, com toda a delicadeza, Benjamim colocou o coração de madeira sobre uma mesa adornada com variados cristais e folhas que o vento trazia.

— Posso pegar no coração? — perguntou Tonecas, entusiasmado.

— Claro que podes! — respondeu Benjamim.

O coração tinha a forma de um ovo, a cor da terra molhada, o cheiro das árvores, a maciez das plumas dos pássaros. Era um coração extraordinário e verdadeiramente raro!

— Oh! Nunca vi nada assim! — exclamou Tonecas, realmente impressionado.

— Com toda a certeza que não! — disse Benjamim, de sorriso cheio. — É mais precioso do que podes imaginar — acrescentou ele.

Nesse momento, Timóteo aproximou-se bem perto do coração.

— Como vês, é um coração admirável! E é teu, meu amigo! — disse Benjamim, comovido.

— E o que faço eu com um coração de madeira?! — perguntou Timóteo de lágrimas nos olhos.

— Este não é um coração vulgar! — replicou Benjamim. — É um coração mágico!

— Oh, a mim não me serve para nada!

— Ora, ora, amigo! — disse Benjamim, um pouco aborrecido. — Parece-me que não sabes onde estás! Este é o País dos Sonhos Possíveis, onde as coisas impossíveis, embora muito tentassem, não conseguiram pôr cá os pés. É preciso relembrar que muitas das coisas extraordinárias deste mundo foram primeiro pensadas, sentidas e sonhadas aqui, no País dos Sonhos Possíveis. O teu coração não é o primeiro nem será o último a nascer entre as minhas mãos. Eu invento a vida. Mas cabe a ti, e apenas a ti, nutrir o teu coração tal como a água da chuva nutre a terra.

Assim que disse estas palavras, Benjamim abraçou Timóteo, que rapidamente se deixou ficar como um bebé no ventre da mãe. Dentro do vazio de Timóteo, Benjamim encontrou o corpo das montanhas, a respiração do vento, as marés salgadas, os solos das estações, os cantos dos animais, planetas inteiros. Timóteo guardava vida do tamanho do Universo.

A noite tinha caído escura sobre o País dos Sonhos Possíveis. A Lua e as Estrelas estavam sonolentas, recolhidas sob o manto da noite. A luz que se espalhava era a de milhares e milhares de pirilampos que passeavam pelo jardim, pelo frondoso pomar e pelo curto carreiro de argila que levava até à Árvore Mãe, de onde vinha um extraordinário odor a Natureza.

ilustração: Jean-Baptiste Monge

Tonecas, Timóteo e Benjamim encontravam-se diante da majestosa Árvore Mãe. Benjamim, erguendo as mãos e juntando-as sobre o peito, fez cair um silêncio sagrado. Delicadamente, deitou o coração sobre as raízes altas que se levantavam da terra. Em poucos segundos, fios e mais fios de luz penetraram o coração e encheram-lhe de vida. Já não era apenas um coração de madeira; era um coração de infinitas coisas juntas, que pensava, sentia, imaginava. Era um coração que começava a escrever uma história: a do Timóteo.

Timóteo estava profundamente comovido e feliz. Com as mãos sobre o peito, ouvia num crescendo a música vibrante que de lá ressoava. É que o coração que morava agora dentro de si batia como um tambor mágico nas mãos de um velho índio que dança à volta da grande fogueira.

O coração já não tinha o tamanho de uma ervilha. Enchera-se novamente de vida!

— Um coração livre, cheio de sonhos felizes! — disse Benjamim, verdadeiramente emocionado.

Também lágrimas comovidas cresciam nos olhos do Tonecas. Naquele precioso momento, lembrava-se da planta de quatro folhas oferecida pelo Tobias. Um dia, também ela haverá de ser uma árvore extraordinária, que inunda de sonhos vivos os corações tristes.

Os três amigos olhavam a noite, que se espreguiçava a espreitar no manto escuro: ela acordava da sua sonolência. Num gesto lento, a noite foi abrindo o seu peito, de onde saíam as mais belas constelações.

— Oh! Maravilha das Estrelas! — exclamou Benjamim. — Nunca vi noite como esta, meus amigos! Não há palavras para a descrever! — Em seguida, deu a mão ao Tonecas e ao Timóteo. E assim ficaram: dentro de um enredo mágico.

Exactamente nessa altura, a brisa estelar trazida pela noite levou para longe o peso que o duende Benjamim carregava no peito. Não era mais o lenhador arrependido. Era o Artesão de Corações Livres.

Tonecas (Green Thumb Godfrey, 2008) foi desenhado pelo artista americano Mateo Dineen. Timóteo (Great Archivist), Benjamim (Bécasse) e a Árvore Mãe (Oak Shee) foram desenhados pelo artista francês Jean-Baptiste Monge.

É certo que, aos olhos destes excepcionais artistas, estes seres têm um outro nome, uma outra história; mas para mim, eles são o Tonecas, o Timóteo, o Benjamim e a Árvore Mãe, seres extraordinários  que sonham corações livres no País dos Sonhos Possíveis.

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